Kupan Puri, liderança do Coletivo Semente Originária, participou do 3º Fórum Brasileiro dos Direitos da Natureza, realizado entre Ouro Preto e Mariana, em Minas Gerais, entre 31 de julho e 2 de agosto de 2026.
Sua participação aconteceu em diferentes momentos do encontro. Ao longo do Fórum, Kupan esteve presente em rodas de conversa e espaços de diálogo, especialmente aqueles dedicados aos povos originários, aos saberes ancestrais e aos Direitos da Natureza. Na noite de 1º de agosto, participou também como artista Puri do Sarau Pachamama, atividade cultural que integrou a programação oficial do evento.
A presença nesses dois espaços — o debate e a arte — dialoga diretamente com uma das propostas centrais do Fórum: aproximar saberes indígenas, comunitários, científicos e jurídicos na construção de outras formas de compreender a relação entre sociedade, território e Natureza.
Um encontro nacional em território marcado pela mineração
O 3º Fórum Brasileiro dos Direitos da Natureza reuniu lideranças indígenas, comunidades tradicionais, movimentos sociais, pesquisadores, juristas, educadores, artistas, representantes do poder público e organizações da sociedade civil.
O encontro aconteceu em Ouro Preto e Mariana, cidades cuja história e realidade contemporânea tornam especialmente concreta a discussão sobre território, mineração, água e justiça socioambiental.
A edição de 2026 teve como eixo o fortalecimento de redes para o enfrentamento às mudanças climáticas e a construção de caminhos para o reconhecimento da Natureza como sujeito de direitos.
A Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) esteve entre as instituições envolvidas no evento, que reuniu diferentes iniciativas e organizações ligadas aos Direitos da Natureza.
Mais do que uma sequência de palestras, a programação foi estruturada para promover escuta, participação e troca entre diferentes formas de conhecimento.
O Fórum colocou entre seus temas a presença das comunidades originárias e tradicionais e o diálogo dessas vozes com a academia, o poder público e outros setores da sociedade.
Povos originários no centro da conversa
Além das atividades culturais, Kupan participou de rodas, círculos e conversas realizadas durante o encontro, com atenção especial às discussões relacionadas aos povos originários e aos Direitos da Natureza.
A programação reservou parte significativa do encontro aos chamados Círculos Temáticos, nos quais diferentes perspectivas puderam ser colocadas em diálogo.
Entre os assuntos discutidos estavam o Direito Ancestral Comunitário, práticas comunitárias diante das mudanças climáticas, modos de ser e viver dos povos, conhecimentos tradicionais e novas formas de relação com rios, serras, florestas e outros seres.
Para Kupan, participar desses espaços significa também inserir perspectivas indígenas em uma discussão que muitas vezes é apresentada apenas como ambiental ou jurídica.
Para muitos povos originários, território e Natureza não aparecem simplesmente como objetos externos à vida humana.
Rios, matas, montanhas, animais e outros seres podem integrar relações de memória, espiritualidade, cuidado, continuidade e pertencimento.
Por isso, discutir os Direitos da Natureza sem ouvir os povos que construíram durante gerações outras maneiras de se relacionar com esses territórios seria deixar de fora uma parte fundamental da conversa.
Quando a Natureza deixa de ser vista apenas como recurso, também muda a pergunta sobre quem pode decidir o que fazer com ela.
Direito Ancestral e outras formas de compreender o mundo
Uma das características do Fórum foi justamente a tentativa de colocar diferentes formas de conhecimento em diálogo.
A programação incluiu debates jurídicos e científicos, mas também espaços dedicados ao Direito Ancestral Comunitário, aos saberes territoriais, ao Bem Viver e às experiências de povos e comunidades tradicionais.
Essa abertura é especialmente importante em uma discussão sobre os Direitos da Natureza.
A ideia de reconhecer rios, serras, florestas ou outros entes naturais como sujeitos de direitos ainda parece nova para parte do direito ocidental.
Para diferentes cosmologias indígenas, porém, a própria separação rígida entre seres humanos e o restante da Natureza pode não fazer sentido da mesma maneira.
Isso não significa afirmar que todos os povos indígenas pensam da mesma forma.
Não existe uma única cosmologia indígena.
Cada povo possui sua própria história, suas experiências e suas formas de compreender as relações entre os diferentes seres.
Reconhecer essa diversidade é também evitar que os povos originários sejam transformados em uma imagem genérica de “guardiões da natureza”.
O que está em questão é garantir que essas diferentes formas de conhecimento também tenham lugar na construção das respostas para a crise ambiental contemporânea.
Mariana dá outra dimensão a essa discussão
Debater Direitos da Natureza em Mariana não é apenas uma escolha geográfica.
A cidade e seu entorno carregam as consequências de um dos maiores desastres socioambientais da história brasileira, além de uma relação secular com a mineração e com a transformação das paisagens de Minas Gerais.
Isso faz com que temas como rios, montanhas, reparação, território e direito deixem de existir apenas no campo teórico.
São discussões que atravessam comunidades e vidas reais.
Para o Coletivo Semente Originária, sediado em Conselheiro Lafaiete, essa reflexão encontra também uma realidade próxima.
A região onde Lafaiete está inserida é profundamente marcada pela mineração e por transformações históricas dos territórios, das águas e das serras.
Participar do Fórum foi, portanto, também uma oportunidade de aproximar debates mais amplos de questões vividas em Minas Gerais.
Da roda de conversa para o Sarau Pachamama
No dia 1º de agosto, a programação se estendeu até a noite com o Sarau Pachamama.
A atividade aconteceu depois de um dia marcado por vivências, círculos temáticos, apresentações, debates e outras atividades do Fórum.
Foi nesse espaço que Kupan participou como artista Puri.
Sua presença no Sarau acrescentou outra linguagem ao que vinha sendo discutido durante o dia.
Nem toda reflexão sobre território, ancestralidade ou continuidade precisa acontecer em uma mesa formal.
Algumas coisas também são transmitidas pela música.
A arte indígena contemporânea é parte dessa presença.
Ela não existe apenas para reproduzir imagens antigas ou apresentar ao público uma representação congelada dos povos originários.
Indígenas continuam criando, compondo, escrevendo, tocando e produzindo cultura no presente.
A participação de Kupan no Sarau Pachamama aconteceu dentro desse lugar: como artista Puri em um espaço de encontro entre arte, território, ancestralidade e Direitos da Natureza.
Uma presença Puri que não pertence ao passado
A participação no Fórum também se soma a um processo mais amplo de fortalecimento da presença contemporânea do povo Puri.
Durante muito tempo, os Puri apareceram em parte da historiografia brasileira principalmente como personagens de um passado colonial.
Essa maneira de contar a história contribuiu para a ideia equivocada de desaparecimento.
Mas há pessoas Puri vivendo hoje.
Há famílias, organizações, produção cultural e intelectual, trabalhos com memória e língua, articulação por direitos e artistas produzindo no presente.
A participação de Kupan no Fórum, tanto nas rodas de conversa quanto no Sarau Pachamama, integra essa continuidade.
Do Semente Originária para outros espaços de diálogo
Como liderança do Coletivo Semente Originária, em Conselheiro Lafaiete, Kupan vem participando de diferentes iniciativas ligadas à presença indígena contemporânea, cultura, políticas públicas e direitos.
Nos últimos meses, essa caminhada passou também por consulta pública promovida pelo Ministério da Cultura sobre proteção dos conhecimentos tradicionais, por articulações do povo Puri junto à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e por diálogos institucionais construídos em Minas Gerais.
O Fórum Brasileiro dos Direitos da Natureza acrescentou uma dimensão particularmente importante a essa trajetória.
Nele, a discussão sobre povos originários encontrou diretamente a discussão sobre território e Natureza.
E, no mesmo espaço, a palavra encontrou a música.
Para o Semente Originária, essas dimensões não precisam caminhar separadas.
Direitos, território, memória, cultura e Natureza fazem parte da mesma vida.
Sobre a participação
Evento: 3º Fórum Brasileiro dos Direitos da Natureza
Participação: Kupan Puri, liderança do Coletivo Semente Originária
Atuação: participação em rodas e espaços de diálogo, especialmente sobre povos originários e Direitos da Natureza, além de apresentação artística no Sarau Pachamama
Datas: 31 de julho a 2 de agosto de 2026
Local: Ouro Preto e Mariana, Minas Gerais
Sarau Pachamama: 1º de agosto de 2026
Temas: Direitos da Natureza, povos indígenas, conhecimentos ancestrais, território, mudanças climáticas, cultura, arte e justiça socioambiental
Site oficial: Fórum Brasileiro dos Direitos da Natureza
Programação oficial: Programação do 3º Fórum Brasileiro dos Direitos da Natureza
Registro no Sarau: Kupan Puri no Sarau Pachamama
Registro da participação
- Evento: 3º Fórum Brasileiro dos Direitos da Natureza.
- Locais: Ouro Preto e Mariana, Minas Gerais.
- Período: 31 de julho a 2 de agosto de 2026.
- Participação: Kupan Puri em debates, círculos temáticos e no Sarau Pachamama, em 1º de agosto.
