Kupan Puri, liderança do Coletivo Semente Originária e integrante da organização indígena Tuatuna, participou de reunião com representantes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) voltada ao diálogo sobre a presença contemporânea e os direitos do povo Puri.
O encontro foi realizado pelo Tuatuna junto à Coordenação Regional Litoral Sudeste da Funai, responsável pela atuação da Fundação nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.
Durante a reunião, integrantes da organização apresentaram parte do trabalho desenvolvido junto à comunidade Puri e conversaram sobre dificuldades enfrentadas por indígenas que vivem em contexto urbano, especialmente no acesso a políticas públicas, registros adequados nos sistemas governamentais e reconhecimento de sua identidade nos serviços públicos.
A participação de Kupan nesse encontro integra uma atuação que atravessa diferentes espaços: de um lado, a organização comunitária Puri; de outro, a construção local do Coletivo Semente Originária em Conselheiro Lafaiete e região.
Um povo presente, não uma história encerrada
Um dos pontos centrais discutidos na reunião foi a maneira como o povo Puri ainda aparece em parte das narrativas históricas brasileiras.
Durante muito tempo, documentos, estudos e discursos públicos trataram os Puri como um povo extinto ou restrito ao passado colonial.
Essa leitura não corresponde à realidade contemporânea.
Famílias Puri mantiveram memórias, vínculos, práticas, histórias e formas de pertencimento mesmo depois de séculos de violência, dispersão territorial e apagamento documental.
Hoje, essa presença também aparece nos registros oficiais do país.
O Censo Demográfico de 2022 contabilizou 1.290 pessoas indígenas pertencentes ao povo Puri no Brasil, número superior aos registros identificados no Censo anterior.
Mais do que uma estatística, esses dados ajudam a romper com uma ideia ainda recorrente: a de que os Puri teriam desaparecido.
A reunião com a Funai partiu justamente do reconhecimento dessa continuidade.
O Estado não decide se um povo existe
Outro tema discutido foi a relação entre identidade indígena, comunidade e poder público.
Para as organizações presentes, é necessário distinguir duas coisas que muitas vezes aparecem misturadas no atendimento público.
O Estado possui responsabilidade de registrar, atender e garantir direitos.
Isso não significa que seja o Estado quem determina a existência de um povo ou concede identidade indígena às pessoas.
A própria Funai reconhece que o pertencimento étnico se relaciona à autodeclaração e ao reconhecimento comunitário, não à emissão de uma espécie de certificado individual pelo Estado.
Essa diferença tem consequências práticas.
Quando uma pessoa Puri busca atendimento no SUS, no Cadastro Único ou em outro serviço público, por exemplo, sua identidade precisa poder ser registrada adequadamente — e não submetida à ideia de que seria necessária uma autorização estatal para que esse pertencimento exista.
Para Kupan, essa mudança de perspectiva é especialmente importante para povos que atravessaram longos processos de apagamento.
Reconhecer a presença Puri contemporânea não significa recriar um povo que desapareceu.
Significa reconhecer uma continuidade que permaneceu viva mesmo quando documentos oficiais deixaram de registrá-la adequadamente.
Políticas públicas e vida cotidiana
A conversa com a Funai também passou por questões concretas enfrentadas por indígenas em contexto urbano.
O Tuatuna apresentou dificuldades encontradas por famílias e pessoas Puri em processos administrativos e no acesso a políticas públicas, além do trabalho desenvolvido para orientar a comunidade diante dessas situações.
Cadastros públicos podem parecer questões burocráticas menores, mas possuem impacto direto.
Eles influenciam a forma como o Estado identifica populações, produz estatísticas, planeja políticas e organiza determinados atendimentos.
Quando uma etnia não aparece corretamente nesses registros, uma parte de sua presença também se torna invisível para a administração pública.
Por isso, o fortalecimento da presença Puri passa não apenas pela memória e pela cultura, mas também por uma dimensão aparentemente simples: poder dizer o próprio nome e vê-lo registrado corretamente.
A língua Puri também entrou no diálogo
A língua Puri foi outro tema presente na conversa.
Nas últimas décadas, diferentes indígenas Puri vêm trabalhando na recuperação, estudo, ensino e circulação de palavras e registros históricos da língua, construindo novas formas de relação com um patrimônio linguístico profundamente afetado pelo processo colonial.
Durante a reunião, também houve espaço para dialogar sobre caminhos de fortalecimento da memória linguística e de produção de materiais voltados ao próprio povo.
Para Kupan, língua, memória e pertencimento não aparecem como assuntos separados.
A língua guarda formas de nomear o mundo, relações com território, memória ancestral e modos próprios de compreender a existência.
Fortalecê-la é também fortalecer caminhos de continuidade.
Do Tuatuna ao Semente Originária
A participação de Kupan na reunião aconteceu dentro da atuação do Tuatuna, organização indígena voltada ao acolhimento, à memória, ao pertencimento, à continuidade cultural e aos direitos do povo Puri.
Ao mesmo tempo, essa experiência dialoga diretamente com o trabalho desenvolvido pelo Coletivo Semente Originária, em Conselheiro Lafaiete.
O Semente tem buscado criar caminhos de organização para indígenas que vivem na região, aproximar pessoas e famílias, fortalecer memórias locais e construir interlocução com instituições públicas.
Essa realidade ajuda também a mostrar que a presença indígena contemporânea não está restrita às terras indígenas ou às regiões tradicionalmente lembradas quando se fala em povos originários.
Ela está também nas cidades.
Está em São Paulo.
Está no Rio de Janeiro.
Está em Minas Gerais.
Está em Conselheiro Lafaiete e nas cidades ao redor.
Os caminhos podem ser diferentes, mas uma questão permanece comum: povos indígenas precisam ser reconhecidos no presente e participar diretamente das decisões que dizem respeito às suas próprias vidas.
Fortalecer, em vez de desaparecer e reaparecer
Uma palavra ganhou importância nesse processo: fortalecimento.
Ela evita a ideia de que o povo Puri precise “ressurgir” para voltar a existir.
O que acontece hoje é outra coisa.
Famílias voltam a se encontrar.
Memórias antes preservadas dentro de casas passam a circular coletivamente.
Pessoas encontram outras pessoas que compartilham histórias semelhantes.
A língua ganha novos espaços.
O nome Puri reaparece nos registros públicos.
Organizações indígenas ocupam mesas de diálogo institucional.
E uma presença que nunca deixou de existir começa a se tornar mais visível.
A reunião com a Funai foi mais um desses passos.
Não como autorização para existir, mas como diálogo entre o Estado e um povo que continua aqui.
Sobre o encontro
Organização: TuatunaÓrgão: Fundação Nacional dos Povos Indígenas — FunaiUnidade: Coordenação Regional Litoral SudesteTemas: povo Puri, políticas públicas, pertencimento, registros públicos, direitos indígenas, memória e língua Puri
Registro do encontro:
Tuatuna — reunião com a Funai em defesa do povo Puri
Registro da articulação
- Atividade: reunião institucional entre a organização indígena Tuatuna e a Coordenação Regional Litoral Sudeste da Funai.
- Pauta: direitos, políticas públicas, registros administrativos, língua e presença contemporânea do povo Puri.
- Participação: Kupan Puri, integrante do Tuatuna e liderança do Coletivo Semente Originária.
